II Colóquio Internacional e I Simpósio em História Contemporânea

ENTREVISTAS

"Não há reforma agrária no Brasil". Entrevista com o presidente da CPT

23 de abril de 2008
Dom Xavier Gilles, 73 anos, é um inconformado. O bispo francês de Viana (MA) e presidente da Comissão Pastoral da Terra (CPT) esteve no Recife para visitar parentes e falou com o JC. Entre outras coisas, criticou o governo federal, a transposição do Rio São Francisco e até o clero conservador. E resumiu sua indignação: "Não há reforma agrária no Brasil". Ele concedeu uma entrevista ao Jornal do Commercio, 21-04-2008.

Eis a entrevista.
Como o senhor analisa a questão agrária no Brasil?
A questão não está resolvida por causa do eterno problema de que as águas correm para o mar. Os ricos querem cada vez ficar mais ricos, deixando os pobres cada vez mais pobres. O latifúndio continua, com outros disfarces, sob o nome de agronegócio, hidronegócio e assim por diante. O povo elegeu Lula e eu acredito que ele poderia ter feito uma reforma agrária. De qualquer maneira, a bancada ruralista não vai deixar nada parecido com uma verdadeira reforma agrária. Depois, vem todo o neoliberalismo, com os Estados Unidos por trás. E a força do dinheiro e o sistema capitalista destroem a natureza, os ecossistemas. A questão é lucro, lucro, lucro...

O senhor esperava, com o governo Lula, uma reforma agrária mais ampla?
Não tem reforma agrária nenhuma. 

O senhor votou em Lula?
Votei e votaria de novo. Mas ele entrou em uma aliança impossível que não deixou que se fizesse o que se esperava. Lula, para ficar no governo, se aliou a gente de todo jeito. Conseqüentemente, não se conseguiu uma reforma agrária. O desmatamento continua, com o gado, o eucalipto e um desrespeito profundo a todas as pessoas da terra: índios, quebradeiras de coco, posseiros, quilombolas, ribeirinhos. Não há vontade. É claro que Lula fez muito pelos pobres. O povo come mais. Há povoados que vivem da Bolsa-Família e da aposentadoria dos velhos. Mas o que necessário é os movimentos populares e todas as pessoas de boa vontade pressionarem e elegerem um Congresso que um dia queira realizar uma verdadeira reforma agrária.

O preço dos alimentos está aumentando no mundo inteiro. O governo faz propaganda forte aqui e lá fora do seu biocombustível. Como o senhor vê essa "obsessão" do governo Lula pelo etanol?
É uma ameaça. Tal qual como é feita a monocultura, seja a cana, o gado ou o eucalipto, desse jeito, é um problema. Eles dizem que estão criando gado no sul do Maranhão, do Pará ou do Amazonas e que não estão devastando a Amazônia. Mas para esse gado chegar ao sul, para onde vai o desmatamento? Para conseguir álcool há queimadas. Sem falar que a grande maioria dos trabalhadores escravos estão nas grandes fazendas de cana-de-açúcar. Retirar o direito de propriedade das fazendas onde se encontra escravos? Nunca! A lista negra para a venda de álcool para as distribuidoras? Nunca! Por causa do Congresso, não há vontade de se fazer uma reforma agrária. Os povos tradicionais - índios, quilombolas - não são respeitados. É o caso da Reserva Raposa Serra do Sol (em Roraima). Já estava decidido, combinado. Agora, mandam Polícia Federal e tudo mais. Os ricos pedem e o Supremo Tribunal Federal suspende. Cá entre nós, sejamos honestos: a Justiça é muito mais rápida para os ricos do que para os pobres. Liminar concedendo reintegração de posse é rápida. Agora, quantos quilombolas tiveram suas terras reintegradas? Há um projeto de lei de um deputado de Mato Grosso que quer retirar da Amazônia Legal os Estados de Tocantins, Maranhão e Mato Grosso. A bancada ruralista está ganhando. 

Em 2006, o presidente colocou os ambientalistas como entrave ao PAC. O senhor deu uma resposta dura a Lula.
As coisas continuam do mesmo jeito. Tem que ser duro com o governo Lula, mas há que se ter cuidado. O povo tem dinheiro, que não tinha antes. É melhor do que nada. Isso não impede dizer que é melhor Lula do que Geraldo Alckmin. Mas todos esperávamos mais. 

O senhor é contra a transposição do Rio São Francisco?
Sem dúvida nenhuma. Vai prejudicar muita gente. É um projeto faraônico que não vai solucionar os problemas. O próprio governo reconhece. A maioria das águas vai para o agronegócio. Sou solidário à luta de dom Luiz Cappio. Mas o episcopado está dividido. A maioria dos bispos da região - Pernambuco, Paraíba e Ceará, os Estados que serão beneficiados - é a favor. 

Houve uma diminuição no número de mortes no campo, mas aumentou o de pessoas expulsas por milícias, segundo o Caderno de Conflitos divulgado na terça-feira pela CPT.
Muitas vezes os "fazendeiros" fazem justiça com as próprias mãos, por meio de jagunços e muitas vezes com a ajuda da Polícia Militar. Não tenha a menor dúvida que há uma aliança corporativista em torno dessa questão. Uma aliança de classe: juízes, ruralistas, políticos, eles vêm da mesma classe. 

Com relação ao relatório, o que o senhor acha mais importante?
O papel da CPT e o papel da Igreja no sentido da fé. Este caderno poder ajudar as pessoas de boa vontade a diminuir o abismo entre os ricos e os pobres. O abismo entre um povo que morre de fome, que é maltratado, que é desprezado, e o que sobra para os outros. A injustiça fundamental, a falta total de humanidade. O trabalho escravo no Brasil é um absurdo. O relatório é um instrumento para que os líderes possam tomar as decisões que têm que ser tomadas. 

Há uma onda conservadora dentro da Igreja Católica. O próprio papa Bento XVI é conservador, como foi João Paulo II. Esse papel de resistência na Igreja ficou restrito a pessoas como o senhor, dom Pedro Casaldáliga, dom Marcelo Carvalheira e dom Tomás Balduíno?
A grande questão da Igreja é a maneira de ser discípulo do Senhor Jesus Cristo. Não conseguimos a unidade, há sim essa divisão. Dentro desta grande igreja, há divisões quanto ao seguimento dos ensinamentos de Jesus. Para uns, há o reconhecimento de Jesus como salvador e a liturgia. Para outros, Jesus foi preso e morto por causa da injustiça. O "amai-vos uns aos outros" de Jesus levava ao que diz a Bíblia: "Estava com fome, me deste de comer. Estava sem terra, me deste terra". Mas é certo que há movimentos dentro da Igreja. Para alguns, basta o louvor. Para outros , não há seguimento de Jesus se não houver o combate à injustiça. Paulo VI disse que o combate pela paz passa pelo combate pela justiça. É uma questão complicada.

A vinda ao Brasil no ano passado de Bento XVI reforçou a Igreja brasileira?
O bispo de Roma traz a unidade. O fato de vir ao Brasil é um apoio. Eu diria que a maioria da Igreja me parece mais preocupada com seus problemas internos do que dar a mão às pessoas de boa vontade. É preciso juntar os dois, ter um equilíbrio.


FONTE: http://www.ihu.unisinos.br/noticias/noticias-anteriores/13405-%60nao-ha-reforma-agraria-no-brasil%60-entrevista-com-o-presidente-da-cpt




TESTEMUNHA DA TORTURA

entrevista com o bispo Dom Xavier Gilles


FÉLIX ALBERTO LIMA
O Estado do Maranhão
16.06.1999


O bispo dom Xavier Gilles de Maupeou d’Ableiges, do município de Viana (MA), a 240km de São Luís (MA), mostra-se inconformado com a nomeação do delegado João Batista Campelo para o comando da Polícia Federal. Dom Xavier Gilles é formado em Teologia e Filosofia na França, foi ordenado padre em 1962, na cidade de Le Mans, e chegou ao Maranhão em 1963. Em entrevista a “O Estado”, dom Xavier nega que tenha participado de guerrilhas na Argélia, quando serviu ao exército francês, e confirma as denúncias de tortura sofridas pelo ex-padre José Antônio de Magalhães Monteiro. “Estive preso com o padre Monteiro e pude ver as marcas e as escoriações deixadas pela Polícia Federal. O bispo afirma que só não chegou a ser torturado na prisão porque o então arcebispo de São Luís, dom João Mota, fez sérias advertências ao delegado da PF.

Como foi sua experiência na Argélia? Há alguma ligação sua com guerrilhas da Frente de Libertação, como o acusaram na época da ditadura?

Dom Xavier Gilles - Como todo mundo sabe, [aquele período] era a guerra de independência da Argélia. Havia a Frente de Libertação Nacional tentando conseguir a independência da Argélia. A França considerava aquele país como território nacional. Não tenho nenhuma participação em guerrilhas. Não é nada disso. Apenas a polícia federal me acusou de ter participado de centros de treinamento de guerrilhas com a Frente de Libertação Nacional da Argélia. Coisa absolutamente falsa, quando na verdade eu era do exército francês e não da FLN.

Como aconteceram as prisões sua e do ex-padre Monteiro?

Dom Xavier Gilles – Fomos nomeados, eu e o Monteiro, respectivamente, pároco e vigário paroquial, em Urbano Santos e São Benedito do Rio Preto. Chegamos juntos em maio de 1960. Começamos a fazer um trabalho de pregar a palavra de Deus, organizar as comunidades eclesiais. O trabalho era fazer a ligação entre o trabalho e a vida. E aí olhávamos para outros aspectos, como a situação agrária e a vida dos trabalhadores. Havia muita injustiça. Com as comunidades, denunciamos algumas injustiças. Refletíamos sob a luz do Evangelho essa realidade agrária.

Vocês dois foram acusados pela polícia de estarem envolvidos em atividades subversivas?

Dom Xavier Gilles – A fé, o testemunho e a mensagem de Jesus Cristo invertem os valores da sociedade. A sociedade se firma nos valores ter, poder e prazer. E Jesus disse: “Seja misericordioso, acolhe o teu irmão, liberta o pobre das cadeias da escravidão”. Havíamos recebido da igreja uma missão. Não havia, portanto, como parar uma missão recebida por nós sacerdotes só por medo.

Vocês receberam ameaças antes da prisão?

Dom Xavier Gilles – Um pouco. Por causa de problemas agrários no Maranhão. Muitas vezes, os verdadeiros proprietários de terra são expulsos por gente que trafica nos cartórios e até na justiça, que consegue títulos de propriedade que não deveria ter. Então, recebemos ameaças desses falsos proprietários de terra. Só não chegamos a ser ameaçados diretamente pela polícia.

O que exatamente associava o trabalho de vocês à subversão?

Dom Xavier Gilles – Não havia nada nas cartas que nos comprometesse como subversivos. Quando o padre Monteiro foi preso, por exemplo, levaram junto a escrivã Rosalina [Rosalina Costa Araújo], de Urbano Santos, sem razão nenhuma. Talvez apenas porque ela não era do mesmo lado político do pessoal que tinha feito as denúncias contra nós. E a Polícia Federal, sem verificar nada, prendeu essa escrivã, acusando-a de ser secretária da Paróquia. Vai perguntar por que, naquela época, o João Batista Campelo fazia isso, por que razão ele monta um processo sem sentido.

Qual a alegação da Polícia Federal para a sua prisão?

Dom Xavier Gilles – Éramos vigários juntos. A polícia invadiu a Casa Paroquial, o padre Monteiro foi trazido para São Luís e torturado. Rapidamente a polícia viu que não poderia acusar o padre Monteiro, que era vigário auxiliar, sem me acusar. Então foram atrás de mim. O arcebispo de São Luís, que era dom João Mota, foi falar comigo e disse que era preciso eu me entregar porque o processo do padre Monteiro estava bloqueado. Os motivos de minha prisão só fui saber algum tempo depois. Diziam que era por causa da Lei de Segurança Nacional.

Vocês dois ficaram presos na mesma cela? 

Dom Xavier Gilles – Só depois de terminar o inquérito. Fomos, depois de terminar o inquérito na Polícia Federal, presos os dois no quartel da Polícia Militar, no atual Convento das Mercês. Foi o Campelo quem fez tudo. Era ele o delegado da Polícia Federal. Ele e o agente faziam as perguntas. Ficamos três semanas na mesma cela.

E com relação às torturas?

Dom Xavier Gilles - Eu não fui torturado. Mas o padre Monteiro foi torturado, sim. Vi tudo logo depois, as marcas, as escoriações e, principalmente, o laudo tanto dos médicos do Estado como do médico do arcebispado, que era o padre João Mohana. Os laudos provam as torturas. Cheguei a ser forçado a provar coisas sem nexo.

E por que só o padre Monteiro foi torturado?

Dom Xavier Gilles – O padre Monteiro foi preso 48 horas antes de mim. Foi trazido para São Luís, interrogado e torturado. A polícia percebeu que não podia acusar o padre Monteiro sem me acusar, pois eu era pároco dele. Tínhamos o mesmo escritório, a mesma biblioteca, as mesmas finanças. Então ele me prendeu. Quando me entreguei, fui acompanhado à polícia pelo arcebispo dom Mota. Ele, como já sabia das torturas ao padre Monteiro, disse à polícia que estava entregando o padre Xavier em bom estado físico e mental. Então, o delegado Campelo perguntou: “O que o senhor está querendo dizer?”. E dom Mota respondeu: “O senhor sabe muito bem o que estou querendo dizer”. Jornalistas, que muitas vezes criam coisas, inventaram na época que não fui torturado porque fui oficial do Exército. Mas nada disso. Não fui torturado porque as torturas ao padre Monteiro foram denunciadas rapidamente e o arcebispo reagiu. Foi graças à lucidez de dom Mota.

O delegado João Batista Campelo assumiu ontem o comando da Polícia Federal. Como o senhor avalia essa nomeação diante das acusações de tortura?

Dom Xavier Gilles – Fico profundamente triste com a nomeação de um homem com o passado como o dele. Num momento como este, mais do que nunca o País precisa de uma Polícia Federal honesta. Fico chocado, mas não posso fazer absolutamente nada. Os testemunhos de um ex-padre e professor de universidade e de um bispozinho lá do interior do Maranhão, para o presidente da República isso e nada são a mesma coisa. Antes de nomear, o presidente já sabia disso tudo e nomeou João Batista Campelo assim mesmo. O próprio presidente, que foi perseguido pelo regime militar, nomeia quem o teria torturado se ele tivesse preso.


FONTE: http://oredemoinho.blogspot.com.br/2011/06/testemunha-da-tortura-entrevista-com-o.html

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